A Elite do Poder

A Elite do Poder

A Anatomia do Poder segundo C. Wright Mills

A Anatomia do Poder segundo C. Wright Mills

Clube Realpolitik · Ciência Política e Pensamento Social

Clube Realpolitik · Ciência Política e Pensamento Social

O que é A Elite do Poder?

A Elite do Poder foi publicado em 1956, no centro da era Eisenhower; num momento em que os Estados Unidos desfrutavam de prosperidade material, celebração nacionalista e, como o próprio Mills formulou, um vácuo político de grandes proporções. O livro é produto de um sociólogo que reunia em si duas tradições raramente encontradas num mesmo estudioso: o rigor empírico da sociologia americana, herdado de Weber e Veblen, e a disposição para fazer perguntas politicamente taboos e que seus colegas de universidade haviam majoritariamente abandonado durante os anos da Guerra Fria.

Charles Wright Mills nasceu em 1916 no Texas, formou-se em sociologia na Universidade do Texas e construiu carreira na Columbia University, onde lecionou até sua morte prematura em 1962, aos quarenta e cinco anos. Era uma figura de temperamento polêmico, avessa ao jargão acadêmico e às concessões institucionais que o macarthismo impunha ao pensamento americano. Antes de A Elite do Poder, havia publicado The New Men of Power (1948), sobre os líderes sindicais, e White Collar (1951), sobre a nova classe média; os três volumes formam uma trilogia informal sobre a estrutura de classes nos Estados Unidos do pós-guerra. O terceiro, A Elite do Poder, é o mais ambicioso e o mais duradouro dos três.

Quando o livro explodiu no debate americano, seu contexto imediato era o de uma nação que havia saído da Grande Depressão, sobrevivido a uma guerra mundial e entrado numa guerra fria sem prazo para terminar. O perfil de leitor típico de 1956, como observou Alan Wolfe no posfácio da edição comemorativa, era alguém que tinha em média trinta e cinco anos e vivera sua infância sob a recessão; a juventude provavelmente na Europa ou no Pacífico e o cotidiano dessa pessoa seria sempre sob a sombra da bomba atômica e do macarthismo. Mills escreveu para esse leitor; e o que lhe disse era que a prosperidade dos anos Eisenhower não devia ser confundida com saúde democrática.

A tese central é de que o poder real nos Estados Unidos está concentrado nas mãos de um número pequeno de indivíduos que ocupam os postos de comando de três domínios institucionais: as grandes corporações, o Estado e o establishment militar. Esses três domínios, à medida que cresceram em escala e se tornaram interdependentes, passaram a ser governados por um grupo de homens cujas origens, trajetórias, escolas e compromissos sociais os aproximam uns dos outros de maneiras que nenhuma teoria da democracia pluralista poderia acomodar confortavelmente.

Os Três Domínios e o Triângulo do Poder

O argumento de Mills parte de uma observação estrutural que ele desenvolve com minúcia sociológica ao longo de quinze capítulos. As instituições que governam a vida moderna cresceram e se centralizaram de modo simultâneo e interdependente. O que era, no século XIX, uma economia dispersa em milhares de pequenas unidades produtivas autônomas tornou-se, no pós-guerra, um sistema dominado por algumas centenas de grandes corporações. O que era um Estado com poderes escassos e descentralizados tornou-se um aparato executivo de alcance continental. O que era um establishment militar de proporções modestas tornou-se a maior e mais dispendiosa característica do governo federal.

À medida que esses três domínios se expandem, as decisões tomadas em cada um deles começam a afetar os outros dois; e os homens que os governam passam a se coordenar, formal ou informalmente, de maneiras que a retórica democrática americana não apenas ignora como ativamente dissimula. Mills resume a posição desses homens assim:

"Estão no comando das grandes hierarquias e organizações da sociedade moderna. Governam as grandes corporações. Operam a máquina do Estado e reivindicam suas prerrogativas. Dirigem o establishment militar. Ocupam os postos estratégicos de comando da estrutura social, nos quais estão concentrados os meios efetivos de poder, riqueza e celebridade de que desfrutam."

A definição operacional que ele propõe é deliberadamente estrutural, rejeitando tanto a versão conspirativa do poder quanto a versão liberal que o dissolve em equilíbrios automáticos:

"Por elite do poder entendemos aqueles círculos políticos, econômicos e militares que, como um conjunto intrincado de camarilhas sobrepostas, partilham decisões de consequência ao menos nacional. Na medida em que os eventos nacionais são decididos, a elite do poder é composta por aqueles que os decidem."

O que essa definição recusa é igualmente importante. Mills não argumenta que existe um grupo secreto que deliberadamente controla tudo; nem que a história é o produto de conspiradores identificáveis que se reúnem em câmaras fechadas para tramar o destino do mundo. O que ele argumenta é mais sóbrio: a concentração do poder resulta de tendências estruturais que abriram oportunidades às quais certos homens souberam responder, e a coordenação entre eles é produto de interesses coincidentes, origens comuns e intercâmbio sistemático de posições.

A Formação da Elite: Escola, Clube e Intercambialidade

Um dos aspectos mais originais de A Elite do Poder é a atenção que Mills dedica aos mecanismos pelos quais a unidade da elite acontece muito antes de qualquer decisão política ou econômica ser tomada. A elite se forma nas escolas secundárias de prestígio, nos clubes metropolitanos, nas famílias que se cruzam por casamentos e por frequentação comum de um circuito social que a maioria dos americanos jamais enxerga.

Mills documenta com paciência estatística a similitude de origem dos homens que ocupam os postos de comando; a prevalência de determinadas escolas, de determinadas igrejas, de determinados clubes. O que emerge dessa documentação é a imagem de uma classe que se reproduz por mecanismos informais que funcionam com a regularidade de uma instituição formal; e que, precisamente por serem informais, são invisíveis à retórica igualitária que a democracia americana prega cultivar.

A segunda base da unidade é a intercambialidade de posições entre os três domínios. Mills rastreia, com nomes e datas, a circulação de um general que se torna presidente de universidade, de um executivo corporativo que assume uma secretaria de Estado, de um político que migra para um conselho de administração. Essa circulação é sistemática; e o critério que a governa é o de que quem já foi bem-sucedido num domínio é recrutado para os outros precisamente por isso. O êxito num domínio funciona como credencial para os demais; e assim a elite se fecha, por afinidade estrutural antes de qualquer conspiração deliberada.

Os Senhores da Guerra

O capítulo sobre os militares é um dos mais originais do livro, e foi aquele que mais surpreendeu os leitores de 1956. Mills trata os generais e almirantes como membros plenos de uma elite cujo peso cresceu de modo dramático com a Segunda Guerra e com a institucionalização subsequente da Guerra Fria; e dedica considerável atenção à formação do tipo humano específico que o establishment militar produz.

A ascensão militar que Mills descreve é ao mesmo tempo institucional e psicológica. Institucionalmente, o establishment militar passou a consumir parcelas do orçamento federal que tornavam qualquer outra agência governamental irrelevante por comparação. Psicologicamente, os oficiais de alta patente formaram um tipo humano moldado por uma instituição total que quebrava deliberadamente as identidades civis e recompunha os seus membros segundo um molde uniforme:

"Mais do que qualquer outra criatura dos círculos superiores, os senhores da guerra modernos, de duas estrelas para cima, se assemelham uns aos outros, interior e exteriormente. Externamente, seus uniformes frequentemente parecem incluir a própria máscara facial. Há a boca resoluta e, geralmente, o olhar firme, e sempre a tendência à impassibilidade; há a postura ereta, os ombros quadrados e a cadência regulada do passo."

O que Mills documenta vai além da formação do caráter militar. Ele rastreia a progressiva entrada dos militares em domínios que até a Segunda Guerra eram prerrogativa civil; a política externa, as decisões orçamentárias, a definição de realidade internacional. Com a ascensão militar, argumenta ele, o diplomata de carreira perdeu qualquer voz efetiva nos círculos superiores; em diversas decisões de consequência global, os profissionais da diplomacia foram simplesmente contornados, e os assuntos foram decididos por camarilhas de altos militares e pessoal político de escolha presidencial.

A Sociedade de Massas

A elite do poder existe numa relação específica com o resto da sociedade; e é para descrever essa relação que Mills desenvolve, nos capítulos centrais do livro, sua análise da sociedade de massas.

A distinção que ele propõe é entre um público e uma massa. Um público, no sentido clássico da teoria democrática, é um conjunto de pessoas que discutem, formam opiniões e têm a capacidade de traduzir essas opiniões em ação política. Uma massa é um conjunto de pessoas que recebem impressões dos meios de comunicação, são incapazes de respondê-las eficazmente, e carecem de qualquer canal de influência real sobre as decisões que as afetam. Mills argumenta que os Estados Unidos de 1956 estavam em processo acelerado de transformação do primeiro tipo no segundo:

"As questões que moldam o destino dos homens não são levantadas nem decididas pelo grande público. A ideia da comunidade de públicos não é uma descrição de fatos, mas a afirmação de um ideal; a afirmação de uma legitimação que se disfarça, como as legitimações hoje em dia tendem a fazer, de fato."

O mecanismo dessa transformação é estrutural. Os meios de comunicação de massa, controlados pelas grandes corporações, passaram a modelar a opinião em lugar de refleti-la. As associações voluntárias que antes mediavam entre o cidadão e o Estado cresceram a ponto de se tornarem inacessíveis ao indivíduo que tentasse influenciá-las por dentro. Os partidos políticos converteram-se em máquinas eleitorais que competem entre si sem oferecer ao eleitor qualquer escolha substantiva sobre as questões que efetivamente decidem. O resultado é uma população que se sente envolvida no processo democrático sem de fato participar das decisões que importam.

A Imoralidade Superior e os (i)Realistas

O capítulo final da obra é o mais polêmico e o mais literariamente elaborado. Mills cunha ali dois conceitos que entraram para o vocabulário da crítica política e que conservam toda a sua utilidade décadas depois.

O primeiro é o da "imoralidade superior": uma condição em que os homens de poder agem com irresponsabilidade organizada, tomam decisões de consequências fatais sem debate público, sem justificação racional e sem mecanismos institucionais de prestação de contas. A imoralidade, nesse sentido, é da posição; resulta da estrutura antes de resultar do caráter individual. O segundo conceito é o dos crackpot realists:

"Em nome do realismo, construíram uma realidade paranoica inteiramente própria; em nome do pragmatismo, projetaram uma imagem utópica do capitalismo. Substituíram a interpretação responsável dos eventos pelo disfarce dos eventos numa névoa de relações públicas; o respeito pelo debate público por noções pouco perspicazes de guerra psicológica; a capacidade intelectual pela agilidade do julgamento medíocre." p. 356

O diagnóstico converge numa conclusão que Mills enuncia sem amenizar; os homens que ocupam as posições mais elevadas da estrutura social chegaram ali sem que isso resulte de virtude, de capacidade meritória ou de qualquer forma de mandato popular efetivo:

"Os homens dos círculos superiores não são homens representativos; sua posição elevada não resulta de virtude moral; seu êxito fabuloso não está firmemente ligado a capacidades meritórias. Comandantes de um poder sem igual na história humana, tiveram êxito dentro do sistema americano de irresponsabilidade organizada."

A Recepção e os Limites da Obra

A recepção de A Elite do Poder foi intensa e dividida, na proporção do desconforto que o argumento provocava. A direita leu o livro como marxismo disfarçado em linguagem sociológica; a esquerda ortodoxa o recebeu como análise insuficientemente comprometida com a teoria de classes. Os sociólogos pluralistas, liderados por Robert Dahl e Talcott Parsons, contestaram tanto o método quanto as conclusões: Dahl, em Who Governs? (1961), argumentou que o poder nas democracias americanas era de fato disperso e contestado; Parsons acusou Mills de confundir poder com dominação e de negligenciar as funções integrativas que as elites desempenham em qualquer sistema social complexo.

Essas críticas têm peso. O método de Mills combina análise estrutural com inferências sobre intenções e coordenação que a documentação nem sempre sustenta; e sua tendência a tratar os três domínios como um bloco coerente subestima os conflitos reais de interesse que os dividem. A pesquisa histórica subsequente sobre o período mostrou que as tensões entre o establishment militar, o poder executivo e o mundo corporativo eram mais agudas e mais frequentes do que o argumento permite ver.

O que permanece intacto é o quadro analítico e a pergunta que o organiza: quem decide as questões que de fato importam, por quais mecanismos essa capacidade de decisão se concentra, e como essa concentração se torna invisível para aqueles que a ela estão submetidos. Essa pergunta nenhuma democracia contemporânea respondeu satisfatoriamente.

Por que A Elite do Poder continua relevante hoje?

A Elite do Poder foi escrito há quase setenta anos sobre uma elite específica, num país específico, num contexto histórico que incluía a Guerra Fria, o macarthismo e o trauma recente da Segunda Guerra Mundial. Nenhum desses elementos subsiste na forma que Mills conheceu. E o livro continua sendo lido, citado e debatido com uma regularidade que poucos estudos de ciência social do século XX podem reivindicar.

A grandeza analítica de Mills está em parte na escala histórica com que ele situou o problema que descrevia. "César podia fazer menos com Roma do que Napoleão com a França; Napoleão menos com a França do que Lenin com a Rússia", observou ele; e os homens que então comandavam as administrações americanas dispunham de meios de poder sem precedente em qualquer desses casos. A concentração subsequente de poder, a financeirização da economia global, a revolução tecnológica e a emergência de plataformas digitais que operam com o alcance dos Estados e a responsabilidade de nenhum deles, produziram uma estrutura que Mills não poderia ter descrito em detalhe; mas que seu quadro analítico continua a capturar com perturbadora precisão.

As perguntas que ele deixou em aberto, o que distingue poder legítimo de poder organizado, como a massa se transforma em público, quais são os mecanismos de responsabilização que podem funcionar quando a elite é genuinamente nacional e os instrumentos de controle são locais, são perguntas que o século XXI tornou mais urgentes. A obra é um instrumento de análise; e os instrumentos não envelhecem enquanto o problema que os produziu persistir.

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Clube Realpolitik — a política como ela é.

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