Hannah Arendt e As Origens do Totalitarismo

Hannah Arendt e As Origens do Totalitarismo

O livro que uma apátrida escreveu para compreender, por dentro, o regime que tentou destruí-la

O livro que uma apátrida escreveu para compreender, por dentro, o regime que tentou destruí-la

Em 1951, quando Hannah Arendt publicou As Origens do Totalitarismo, o mundo ainda processava, com dificuldade, o que tinha acabado de acontecer. O julgamento de Nuremberg encerrava havia quatro anos; a memória do Holocausto, longe de consolidada, era um assunto do qual as pessoas preferiam não falar; e a Guerra Fria desenhava, com perfeita simetria, dois campos opostos para os quais qualquer análise política deveria eventualmente convergir. Nesse contexto, uma filósofa alemã apátrida publicou um livro de oitocentas páginas que recusava, ao mesmo tempo, demonizar o nazismo como aberração irracional e absolver o stalinismo como projeto de emancipação mal conduzido. Era um livro que irritava a todos e não dava razão a ninguém. Tinha tudo, portanto, para se tornar leitura obrigatória.

Quem escreveu e por que isso importa

Para o leitor que chega à autora sem o aparato de uma biografia, convém fixar três fatos. Arendt nasceu em 1906, em Hannover, numa família judia assimilada de classe média; estudou filosofia em Marburg com Heidegger, em Heidelberg com Karl Jaspers, e defendeu, ainda na casa dos vinte anos, uma tese sobre o conceito de amor em Santo Agostinho; e em 1933, com o nazismo recém-instalado, foi presa pela Gestapo enquanto compilava material antissemita para a Federação Sionista Alemã, fugiu para Paris, e dali, em 1941, com a guerra já em curso, embarcou para os Estados Unidos sem documentos. A obra que escreveria uma década depois é o produto de uma cabeça treinada na grande tradição filosófica alemã e de um corpo que conhecia, por experiência direta, o que significa ser declarado supérfluo pela própria pátria.

Essa coincidência entre o objeto de estudo e a experiência biográfica confere ao livro uma qualidade difícil de fabricar. Arendt não tem o conforto de quem analisa o perigo de longe, e também não confunde o testemunho pessoal com a análise que faz. Ela dirá depois, em ensaio célebre, que compreender não é perdoar; é o esforço, sempre incompleto, de tornar nossa própria presença no mundo um pouco menos estranha.

O que torna o totalitarismo um fenômeno novo

O que torna o totalitarismo irredutível às tiranias e despotismos que a humanidade já conheceu? Arendt recusa de saída a explicação mais cômoda; isto é, a tentativa de tratar Hitler e Stálin como retornos de uma barbárie sempre latente, como acessos coletivos de loucura, ou como aberrações estatísticas de povos que de algum modo enlouqueceram. Ela quer mostrar que o totalitarismo é uma criação histórica precisa, com pré-condições rastreáveis, com lógica interna própria, e com uma ambição que nenhuma forma anterior de tirania ousou; a de transformar a própria natureza humana.

A tirania ordinária se satisfaz com a obediência. O regime totalitário vai além; quer ocupar todo o espaço que separa um homem de outro, eliminar a esfera privada, destruir a possibilidade mesma de uma vida interior. Não é uma questão de grau de violência, mas de natureza do projeto.

Uma obra em três degraus

O livro se organiza em três partes que correspondem, sem coincidir exatamente, aos três degraus do argumento. Na primeira, Arendt examina o antissemitismo moderno. Na segunda, o imperialismo europeu do final do século XIX. Na terceira, o totalitarismo propriamente dito. A escolha desconcertou os primeiros leitores e ainda hoje desconcerta quem espera um tratado linear sobre Hitler e Stálin. Mas a estrutura é deliberada. Antissemitismo e imperialismo são, no argumento de Arendt, os dois reservatórios históricos dos quais o totalitarismo retira seus materiais; sem entender como cada um deles dissolveu, à sua maneira, o tecido político da Europa do século XIX, não se compreende por que o século XX produziu o que produziu.

O antissemitismo que precisava tornar-se racial

O antissemitismo moderno, mostra Arendt, não é a continuação natural do antijudaísmo medieval. Durante séculos, os judeus europeus ocuparam uma posição funcional muito específica, qual seja, a de financiadores das coroas, intermediários entre a aristocracia e a nascente economia monetária, agentes de operações que a moral cristã da época proibia aos cristãos. Era uma posição precária, sempre dependente do favor do príncipe, mas inteligível dentro da ordem do Antigo Regime. Quando o Estado-nação se consolida no século XIX e essa função se torna obsoleta, os judeus se veem numa situação estranhíssima, qual seja, ricos, visíveis, sem poder político real, e sem qualquer papel social que os ligasse à massa da população. Foi nessa brecha que o antissemitismo moderno se instalou.

Mas o salto decisivo, o que torna o antissemitismo moderno qualitativamente distinto do antigo, está na sua conversão em categoria racial. Quando o judeu deixa de ser definido pela religião que professa e passa a ser definido pelo sangue que carrega, a perseguição muda de natureza. O antijudaísmo medieval admitia a conversão; o antissemitismo moderno, jamais. Aquele tinha um limite teológico; este tem uma fronteira biológica que nenhuma vontade individual pode atravessar. E quando o inimigo é definido pela biologia, a perseguição, levada às suas últimas consequências, deixa de ser perseguição e se torna extermínio; isto é, a única solução logicamente compatível com a premissa.

O laboratório colonial

A segunda parte do livro é a mais ignorada pela memória corrente e provavelmente a mais original do argumento. Arendt sustenta que a Europa praticou, nas suas colônias africanas e asiáticas, as técnicas de governo que mais tarde aplicaria em casa. O laboratório do totalitarismo não foi Berlim, foi o Congo de Leopoldo II, a África do Sul dos administradores britânicos, a Índia dos vice-reis que aprenderam a governar populações inteiras sem qualquer base na lei, na tradição compartilhada, ou no consentimento. Foi nas colônias que a Europa desenvolveu três coisas que mais tarde reimportaria; o racismo como princípio explicativo da diferença entre dominantes e dominados, a burocracia sem freio legal agindo em nome de um interesse superior à lei escrita, e a categoria daquela população supérflua cuja existência o mundo civilizado podia tratar como indiferente.

Esta última categoria Arendt chama de superfluidade a condição daquele que perdeu o direito mesmo de pertencer a alguma comunidade política reconhecida. O refugiado apátrida do entreguerras, escreve Arendt na posição de quem o foi, descobriu que os chamados direitos humanos abstratos não significavam coisa alguma quando não havia comunidade política disposta a fazê-los valer. Ele era humano e, justamente por isso, não era ninguém. A categoria é a antessala do campo de concentração.

O terror como forma de governo

É na terceira parte que Arendt descreve o regime totalitário maduro, e aqui o leitor encontra as páginas mais densas e mais célebres do livro. O terror, no totalitarismo, não diminui à medida que o regime se consolida, como acontece nas tiranias antigas; ele aumenta. Porque o terror totalitário deixou de ser instrumento e tornou-se forma de governo; existe para implementar uma lei que o regime considera superior à vontade dos homens, qual seja, no nazismo, a Lei da Natureza, que prescreve a vitória da raça superior; no stalinismo, a Lei da História, que prescreve a vitória do proletariado. Diante dessas leis, o indivíduo concreto, com sua hesitação, sua dúvida, sua simples permanência viva, é um obstáculo a ser removido.

A ideologia que não precisa convencer, só encadear

Por isso Arendt insiste em que a ideologia totalitária não é uma doutrina como as outras. Ela não pede adesão sentimental, e tampouco pede convencimento argumentativo. Pede apenas que se aceite uma premissa, e que se aceitem, em seguida, todas as consequências que dela derivam com a lógica implacável de um silogismo. Aceite que a raça superior deve sobreviver, e o extermínio dos inferiores deixa de parecer crime e passa a parecer dever. Aceite que a história caminha para a sociedade sem classes, e a liquidação dos inimigos objetivos do proletariado deixa de parecer injustiça e passa a parecer ciência. Ele dirá que está apenas seguindo a lógica, e dentro do sistema terá razão. A ideologia totalitária é uma máquina de fazer o monstruoso parecer necessário a quem aceitou a primeira frase.

O homem solitário

Mas tudo isso pressupõe um tipo humano sem o qual o totalitarismo não tem sobre o que se erguer. Arendt distingue, com cuidado de filósofa, três condições que costumam ser confundidas. Estar só é poder estar com a própria companhia, em diálogo interior, refletindo. Estar isolado é estar privado da companhia dos outros na esfera pública, sem capacidade de agir coletivamente. Estar solitário é algo de outra ordem; é estar privado, também, da própria companhia, ter perdido o senso comum que nos permite verificar a realidade na partilha com os outros, e estar por isso à mercê de qualquer ideia que se apresente com aparência de necessidade lógica. O homem solitário acredita em qualquer coisa, contanto que pareça encadeada. É sobre esse homem que o totalitarismo se ergue.

Aprender a distinguir

Arendt mostra que a barbárie totalitária longe de ser um acidente de povos atrasados, foi uma possibilidade interna à própria civilização moderna, à massificação, à perda dos vínculos comunitários tradicionais, ao desenraizamento que a economia industrial produziu, e à fragilidade desses direitos humanos que a Europa proclamava como universais ao mesmo tempo em que os negava sistematicamente nas suas colônias e nos seus apátridas. A dignidade da pessoa humana, conclui ela com pesar, é uma construção política frágil, que cada geração precisa garantir de novo, sob pena de descobrir, tarde demais, que a civilização capaz de produzi-la é também capaz, nas circunstâncias certas, de desfazê-la com uma eficiência que nenhuma barbárie exterior jamais alcançou.

A indispensabilidade de Arendt hoje não está em fornecer rótulos para o uso polêmico do dia, em deixar que qualquer adversário político seja chamado de totalitário ao primeiro sinal de descontentamento. Está exatamente no oposto; está em ensinar a distinguir, a distinguir a tirania do totalitarismo, o antissemitismo moderno do ódio antigo, o terror como instrumento do terror como lei e o isolamento da solidão. Sem essas distinções, o conceito de totalitarismo vira palavra de xingamento, e perde precisamente o que Arendt levou a vida para construir: a capacidade de pensar o que aconteceu.

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