O Mito do Estado: Notas para uma meditação sobre o poder moderno

O Mito do Estado: Notas para uma meditação sobre o poder moderno

Gustavo de Assis

Realpolitik

Introdução: a velha tentação com nova máscara

Confesso que durante muito tempo acreditei que o mito fosse coisa morta, enterrada com os deuses de bronze e as superstições tribais. Enganei-me — como tantos outros que confiaram demais na inteligência humana e de menos na sua inclinação para a idolatria. O mito não morreu; apenas vestiu gravata, aprendeu estatística e passou a frequentar gabinetes ministeriais.

Foi Ernst Cassirer quem me ajudou a compreender esse equívoco moderno. O Mito do Estado é um livro que inquieta a mente de hoje. Cassirer mostra, com serenidade quase cruel, que o homem moderno não abandonou o mito — apenas o transferiu para a política. E o fez com a pretensão adicional de chamá-lo razão.

Vivemos, pois, sob Estados que se dizem técnicos, jurídicos e científicos, mas que operam, no fundo, por meio de símbolos obscuros, paixões primárias e narrativas salvacionistas. O Estado moderno, esse ídolo discreto, exige menos incenso do que os antigos, mas muito mais obediência interior.

A ingenuidade racionalista e o pecado da modernidade

Houve um tempo — e não faz tanto assim — em que se acreditava que a educação, o progresso científico e a organização jurídica bastariam para produzir sociedades politicamente sãs. O mito, dizia-se, era coisa de povos atrasados. A razão triunfara. Era o fim da infância da humanidade.

O século XX tratou de desmentir essa fantasia com uma pedagogia sangrenta. Povos alfabetizados, leitores de Kant e usuários de ferrovias modernas entregaram-se, com alegria inquietante, a cultos políticos de evidente caráter religioso. Líderes foram adorados, símbolos sacralizados, inimigos demonizados. A razão não apenas falhou: ajoelhou-se.

Cassirer percebeu o que muitos preferiram ignorar: a razão moderna, quando separada de qualquer fundamento metafísico ou moral objetivo, não elimina o mito — ela o organiza melhor. O mito passa então a operar com método, disciplina e eficiência. E torna-se, por isso mesmo, mais perigoso.

O homem simbólico

O homem, ensina Cassirer, é um animal simbólico. Não vive apenas de fatos, mas de imagens, palavras, gestos e narrativas. Isso é inevitável. O problema começa quando esses símbolos deixam de apontar para a verdade e passam a fabricá-la.

O Estado Mítico não governa explicando suas tecnicidades, mas simplesmente fazendo sugestões; antes de convencer, ele busca envolver o cidadão. Não há aqui uma adesão racional, o que o Estado exige é uma identificação emocional. Cria um clima espiritual, um consenso tácito, uma espécie de comunhão laica em que discordar passa a ser não sú um erro intelectual, mas uma falta moral grave.

E aqui reside o perigo maior: o mito político moderno não se apresenta como mito. Ele se disfarça de ciência, de justiça social, de necessidade histórica, de urgência humanitária. É o velho bezerro de ouro fundido com novas ligas.

Técnica, propaganda e a liturgia do poder

Sempre me causou desconfiança esse entusiasmo moderno pela eficácia. Cassirer confirma a suspeita: a técnica, quando aplicada à política, torna-se uma forma de liturgia invertida. A propaganda substitui o púlpito, o slogan substitui o credo, a repetição substitui o argumento.

O Estado Mítico é profundamente técnico. Não nasce do povo, como gostam de dizer os folhetins ideológicos, mas de gabinetes especializados. Psicólogos, comunicadores, estrategistas e burocratas aprendem a manipular emoções com precisão quase científica - o behaviorismo nasceu só para isso, como diziam seus fundadores. O medo, a esperança, o ressentimento e a culpa tornam-se instrumentos administrativos.

E o cidadão moderno, cansado, confuso e desejoso de pertencer, agradece. O mito oferece aquilo que o mundo fragmentado lhe negou: sentido simples, identidade clara, inimigos visíveis.

O líder: ídolo portátil

Em certo ponto, o mito exige um rosto. Surge então o líder. Não um governante comum, mas uma figura simbólica total. É o tipo messiânico, talvez o líder carismático, ou ainda o líder com punho de ferro que comanda autoritário, sempre sob promessas de um futuro melhor, ou ao menos de aniquilar um inimigo odioso - e geralmente fictício.

Criticar o líder passa a ser uma blasfêmia política. Ele não é julgado por critérios objetivos, mas defendido por fidelidade afetiva. É curioso — e trágico — como o homem moderno, que se julga emancipado da religião, recria ídolos com uma facilidade desconcertante.

Cassirer mostra que aqui o Estado atinge sua forma mais mística: o poder deixa de ser uma função e torna-se uma presença viva encarnada no líder e nessa pseudo-religião moderna encarnada no Estado.

O mito como alívio da consciência

Talvez a função mais perversa do mito político seja esta: aliviar o homem de sua responsabilidade moral. Se tudo é histórico, estrutural, necessário, então ninguém é culpado. A injustiça torna-se meio; a violência, ferramenta; e o erro, mero detalhe de percurso, que será corrigido em prol do bem maior num futuro incerto.

O mito consola esse novo cidadão. Diz ao homem que ele não escolheu nada disso, mas foi escolhido por um bem maior;. que ele não errou, mas apenas cumpriu um tão necessário papel por esse bem; que não pecou, enfim, mas apenas participou de um processo inevitável. É uma teologia sem pecado e, portanto, sem redenção.

Por que Cassirer ainda nos incomoda?

O Mito do Estado é um livro incômodo porque nos retira o álibi. Ele mostra que não somos vítimas passivas do mito do Estado, mas seus colaboradores. Aceitamos símbolos fáceis, narrativas prontas e indignações pré-fabricadas porque é mais confortável do que pensar e assumir a responsabilidade por nós mesmos.

Em tempos de massas digitais, histerias morais instantâneas e política transformada em educação religiosa emocional, Cassirer permanece atual demais para nosso gosto. Ele nos lembra que o mito não se vence com outro mito, mas com lucidez — essa virtude rara e pouco recompensada.

E talvez seja preciso acrescentar, com uma nota que Cassirer, mais contido, não escreveu: sem verdade objetiva, sem ordem moral, sem algo que nos transcenda, o homem sempre acabará ajoelhado diante do Estado.

E o Estado, como todo ídolo, cobra muito caro.