
O que é Psicologia das Multidões?
Publicada em Paris no ano de 1895, em pleno fervor daquela belle époque que mal pressentiu as catástrofes que preparava, a obra Psicologia das Multidões representa a tentativa mais ambiciosa que o século XIX produziu de compreender o ser humano não em sua singularidade pensante, mas naquele estado de dissolução que ocorre quando os indivíduos se reúnem sob certas condições e formam, por assim dizer, um ser coletivo de características próprias e distintas das que cada um deles apresentaria isoladamente.
Gustave Le Bon nasceu em 1841, formou-se médico em Paris sem jamais ter exercido a clínica com afinco, e passou décadas percorrendo terrenos tão díspares quanto a fisiologia, a arqueologia egípcia e a física, antes de chegar àquele problema que o haveria de consumir pelo resto da vida: por que razão os indivíduos, quando reunidos em multidão, agem de maneira que nenhum deles adotaria de bom grado se estivesse sozinho, dotado de seu juízo e de sua consciência?
A pergunta não era nova, mas a franqueza com que Le Bon a formulou e as conclusões a que chegou provocaram reações que revelam, elas próprias, algo da psicologia coletiva que o livro descrevia. A academia francesa, pela voz de Durkheim, o chamou de amador sem método; Gordon Allport, décadas depois, descreveu-o como talvez o livro mais influente já escrito em psicologia social; Mussolini o citava explicitamente; e Freud o leu com atenção suficiente para publicar, em 1921, uma obra inteira em que dialogava com seus argumentos.
Para além da rejeição acadêmica e da admiração prática, pesa sobre Le Bon uma acusação mais grave: a de que não era, afinal, tão original quanto pretendia ser. Scipio Sighele havia formulado o problema específico da psicologia coletiva em La folla delinquente, em 1892; Gabriel Tarde o havia abordado em Les lois de l'imitation, em 1890; e ambos trabalhavam a partir de Hippolyte Taine. Le Bon chegou depois de todos eles, sem jamais reconhecer as dívidas que contraia, respondendo às acusações de plágio com a tese da inveja profissional. McClelland, que examinou as controvérsias em detalhe, cunhou para descrevê-lo a expressão "saqueador científico", alguém que condensava numa prosa fluente e acessível o que outros haviam formulado com mais nuance e mais escrúpulo metodológico.
A polêmica não se encerrou na sociologia. Em episódio que dá a medida de sua personalidade, Le Bon escreveu a Einstein exigindo reconhecimento público pela descoberta do princípio da relatividade, alegando tratar-se de mais um caso de ignorância alemã em relação à ciência francesa. Einstein respondeu que roubar uma ideia não constitui furto nacional, mas pessoal, e a correspondência terminou ali.
Tampouco é possível ignorar, numa leitura honesta, que o projeto político do livro tinha um viés ideológico: Le Bon escrevia para os estadistas da Terceira República a quem pretendia ensinar como conter as multidões que a democratização havia posto em movimento, não para aperfeiçoar as instituições, mas para que a elite aceitasse a irracionalidade das multidões e aprendesse a conduzi-las por meios igualmente irracionais. Reconhecer tudo isso não invalida a análise; torna-a mais complexa, que é coisa diferente e mais honesta.
A transformação do indivíduo na multidão
O conceito central da obra é aquilo que Le Bon chama de alma coletiva, expressão que a posteridade tratou com condescendência, como se fosse mera metáfora literária, sem perceber que apontava para um fenômeno que a ciência posterior viria a confirmar por caminhos que o próprio autor não teria podido antecipar. Quando indivíduos se reúnem sob certas condições, forma-se uma configuração psicológica específica, dotada de características que nenhum dos membros possui isoladamente e que só existe enquanto durar a reunião.
Le Bon é preciso sobre o que entende por multidão, e essa precisão foi a primeira coisa que seus leitores descartaram:
"Em certos momentos da história, meia dúzia de homens pode constituir uma multidão psicológica, enquanto centenas de indivíduos reunidos de maneira acidental podem não vir a constituí-la." (p. 49)
O critério não é numérico, nem geográfico, mas psicológico; e é precisamente por isso que a análise de Le Bon se aplica a fenômenos que, à primeira vista, parecem não ter relação com o tumulto de rua que seus críticos imaginavam ser seu único objeto.
Três mecanismos produzem essa alma coletiva. O primeiro é o anonimato, que dissolve o senso de responsabilidade individual e confere ao sujeito um "sentimento de potência invencível que lhe permite ceder a instintos que ele, se estivesse só, obrigatoriamente refrearia" (p. 57). O segundo é o contágio, pelo qual "todo sentimento, todo ato, é contagioso; a tal ponto que o indivíduo mui facilmente sacrifica seu interesse pessoal pelo interesse coletivo" (p. 59). O terceiro é a sugestibilidade, mecanismo pelo qual o contágio opera, aproximando o indivíduo em multidão do estado hipnótico descrito por Charcot, com a capacidade crítica suspensa e os impulsos inconscientes à superfície do comportamento.
O resultado que Le Bon extrai desses três mecanismos não surpreende quem conhece a época em que ele escreveu, mas retém uma força que o tempo não diminuiu:
"Pelo simples fato de fazer parte de uma multidão, o homem desce vários degraus na escala da civilização." (p. 61)
A multidão não eleva; degrada. Não esclarece; ofusca. E o faz com a precisão de um mecanismo que pode ser estudado, descrito e, sobretudo, utilizado.
Os mecanismos de persuasão coletiva
O segundo livro da obra, o mais sofisticado de seus três e o menos citado, por razões que provavelmente têm a ver com as consequências práticas do que nele se lê, trata dos instrumentos pelos quais um líder pode agir sobre a multidão em tempo real. Le Bon distingue fatores remotos, como as tradições, as instituições e aquela herança lenta de séculos que condiciona o que uma multidão pode ou não aceitar, dos fatores imediatos, que são os meios de ação disponíveis ao estadista ou ao agitador que queira mover uma multidão no presente.
Entre os fatores imediatos, o mais eficaz não é o argumento, conclusão que Le Bon estabelece com uma serenidade quase desconcertante:
"As multidões, podendo pensar apenas por imagens, só se deixam impressionar por imagens." (p. 115)
A lógica não persuade a multidão; a imagem a mobiliza, a fórmula a captura, o símbolo a governa. Os instrumentos práticos de ação são afirmação, repetição e contágio, cada um reforçando o anterior num ciclo em que a verdade da proposição deixa de ser relevante para sua eficácia. O prestígio completa o quadro: a autoridade do líder não depende de sua competência verificável, mas daquela qualidade que Le Bon descreve como fascínio, combinação de êxito, reputação e capacidade de encarnar os símbolos que a multidão projeta sobre uma figura que lhe sirva de centro.
A resposta de Freud
Em 1921, Sigmund Freud publicou Psicologia das Massas e Análise do Eu, obra em que se propôs responder a Le Bon com os instrumentos da psicanálise. Freud concordou com o diagnóstico; o indivíduo, ao integrar a massa, sofre uma transformação real. Discordou da explicação; o que Le Bon descreveu como hipnose coletiva podia ser compreendido, segundo Freud, pelos mecanismos da identificação, da regressão e da substituição do ideal do eu pela figura do líder, que passa a ocupar o lugar que o sujeito havia reservado para si mesmo.
A resposta de Freud não refutou Le Bon; aprofundou-o por outro caminho, e tornou-se ela própria uma das obras mais importantes sobre o comportamento coletivo já escritas.
Por que Psicologia das Multidões continua relevante hoje?
Os mecanismos que Le Bon descreveu em comícios do século XIX são hoje executados por algoritmos com uma eficiência que o próprio autor não poderia ter imaginado, e a escala em que operam tornaria irreconhecível, para ele, o fenômeno que acreditava ter catalogado com suficiente rigor. Afirmação, repetição, contágio e prestígio, os quatro instrumentos que Le Bon identificou como fundamentos da persuasão coletiva, são otimizados por sistemas que processam bilhões de interações diárias, sem que os usuários percebam que estão dentro de uma multidão formada artificialmente e governada pelos mesmos mecanismos que ele observou nos ajuntamentos políticos da Terceira República francesa.
A academia descartou Le Bon como especulação sem método; a tecnologia o aplicou como manual de operação. Psicologia das Multidões é, em 2026, um dos livros que melhor descreve o presente.
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