Psicologia das Multidões

Psicologia das Multidões

Gustave Le Bon e a obra que antecipou a era da IA e dos algoritmos.

Gustave Le Bon e a obra que antecipou a era da IA e dos algoritmos.

Clube Realpolitik

Clube Realpolitik

O que o livro diz e o que pretendia

Publicada em Paris em 1895, Psicologia das Multidões é a tentativa mais ambiciosa que o século XIX produziu de compreender o ser humano não em sua singularidade pensante, mas naquele estado de dissolução que ocorre quando os indivíduos se reúnem sob certas condições e formam um ser coletivo de características próprias, distintas das que cada um deles apresentaria isoladamente.

O livro busca entender por que razão os indivíduos, quando reunidos em multidão, agem de maneira que nenhum deles adotaria de bom grado se estivesse sozinho. Le Bon não estava falando de turbas medievais nem de revoluções excepcionais. Estava falando de qualquer reunião humana nas condições certas; e as condições, mostrou ele, são menos raras do que se imagina.

O conceito central é aquilo que Le Bon chama de alma coletiva, que é um tipo de configuração psicológica específica que emerge quando indivíduos se reúnem sob certas circunstâncias, dotada de características que nenhum dos membros possui isoladamente e que deixa de existir quando a reunião se dissolve.

"Em certos momentos da história, meia dúzia de homens pode constituir uma multidão psicológica, enquanto centenas de indivíduos reunidos de maneira acidental podem não vir a constituí-la." (p. 49)

O critério não é numérico, nem geográfico, mas psicológico; e é por isso que a análise se aplica a fenômenos que, à primeira vista, parecem não ter relação com o tumulto de rua que seus críticos imaginavam ser seu único objeto.

Três mecanismos produzem essa alma coletiva. O primeiro é o anonimato, que dissolve o senso de responsabilidade individual e confere ao sujeito um sentimento de potência que o autoriza a fazer o que nunca faria sozinho. O segundo é o contágio, pelo qual sentimentos e atos se propagam de indivíduo a indivíduo com uma velocidade que nenhum raciocínio consegue acompanhar. O terceiro é a sugestibilidade, que suspende a capacidade crítica e aproxima o indivíduo do estado hipnótico descrito por Charcot, receptivo a qualquer imagem ou fórmula que chegue no momento adequado.

O resultado que Le Bon extrai desses três mecanismos é a regressão: o homem culto e o ignorante, reunidos nas condições certas, chegam ao mesmo patamar. A instrução não protege. O hábito de pensar não protege. O que a multidão dissolve não é a opinião do indivíduo, mas a capacidade de formá-la.

"Pelo simples fato de fazer parte de uma multidão, o homem desce vários degraus na escala da civilização." (p. 61)

O segundo livro da obra, o mais sofisticado e o menos citado, trata dos instrumentos concretos de ação sobre a multidão. Le Bon distingue fatores remotos, como as tradições e as instituições, dos fatores imediatos, que são os meios disponíveis a quem queira mover uma multidão no presente. Entre eles, o mais eficaz não é o argumento. São a afirmação, declarada com força e sem demonstração; a repetição, que instala crença por insistência; o prestígio, fascínio que paralisa a capacidade crítica antes que o argumento chegue; o contágio emocional, que dispensa qualquer raciocínio; e a imagem sobre o argumento.

"Conhecer a arte de impressionar a imaginação das multidões é conhecer a arte de governá-las." (p. 119)

Era esse o projeto do livro: ensinar aos estadistas da Terceira República como conter as massas que a democratização havia posto em movimento. O projeto era explicitamente visando conservar o poder dos que o tinham. Mas o manual que Le Bon produziu resultou numa coisa diferente do que pretendia; uma descrição dos mecanismos do comportamento coletivo suficientemente precisa para que qualquer leitor, de qualquer campo e de qualquer intenção, pudesse usá-la.

O que veio depois confirmou isso. A academia rejeitou. Os práticos leram. E o que os práticos fizeram com o livro é o assunto das seções seguintes.

Um saqueador científico que a posteridade confirmou

Há uma certa ironia, que o próprio Le Bon teria apreciado com reservas, no fato de que o homem cujo método foi chamado de amadorístico, impreciso e metodologicamente indefensável seja hoje, mais de um século depois, o autor cujos princípios são aplicados com maior consistência e em maior escala por pessoas que talvez jamais tenham ouvido o seu nome.

Gustave Le Bon nasceu em Nogent-le-Rotrou em 1841 e chegou a Paris aos dezenove anos com a convicção, que não o abandonaria tão cedo, de que havia sido colocado no mundo para fazer algo que outros ainda não tinham conseguido. Formou-se médico sem jamais exercer a clínica com afinco, percorreu a fisiologia, a arqueologia egípcia, a física e a antropologia com a mesma disposição de quem coleta em territórios alheios o material para uma síntese própria, disposição que os historiadores da ciência chamam de ecletismo criativo. Mas essa coleta por vezes era o trabalho de um terceiro, e os contemporâneos de Le Bon não tardaram a chamá-lo saqueador.

A acusação tinha fundamento. Scipio Sighele havia publicado La folla delinquente em 1892, três anos antes de Psicologia das Multidões. Gabriel Tarde havia tratado dos mecanismos de imitação e contágio em Les lois de l'imitation em 1890. Hippolyte Taine havia fornecido o enquadramento político, a multidão como ameaça à ordem natural, em Les Origines de la France Contemporaine, obra que marcou toda a geração. Le Bon chegou depois de todos eles, absorveu o que havia, destilou numa prosa mais fluente e acessível e assinou como se a síntese fosse descoberta. O pesquisador J. S. McClelland cunhou para descrevê-lo a expressão scientific freebooter, que se traduz como saqueador científico: alguém que condensa em linguagem popularizável o que outros formularam com mais escrúpulo metodológico e reivindica a originalidade como própria.

O episódio com Einstein dá a medida da personalidade. Nos anos 1920, Le Bon escreveu ao físico alemão exigindo reconhecimento público pela descoberta do princípio da relatividade, alegando que certas de suas especulações anteriores haviam antecipado a teoria. Einstein respondeu seco, com pouca paciência: roubar uma ideia não constitui furto nacional, mas pessoal. A correspondência terminou ali. Le Bon tinha então mais de oitenta anos e continuava convicto de sua prioridade em quase tudo.

O que torna esse percurso intelectualmente interessante é que a posteridade, que raramente é justa, foi com ele simultaneamente generosa e punitiva. Generosa ao confirmar o fenômeno que ele descreveu; punitiva ao reservar a confirmação para os que nunca o citaram.

O que Freud encontrou no livro, e por que não conseguiu ignorá-lo

Em 1921, Sigmund Freud publicou Psicologia das Massas e Análise do Eu, e a primeira seção do livro é uma leitura detalhada de Le Bon que ocupa várias páginas. Freud o cita em extenso. Concorda com a descrição, mas discorda da explicação. E é precisamente nessa discordância que o texto de Freud se desenvolve para explicar uma outra teoria.

O ponto em que Freud se detém é o da sugestão. Le Bon usava o hipnotismo de Charcot como modelo interpretativo: o indivíduo em multidão assemelha-se ao hipnotizado, com a personalidade consciente suspensa e os impulsos inconscientes à superfície. Para Freud, isso descrevia um efeito sem nomear a causa. A pergunta que Le Bon não havia feito era sobre quem substitui o hipnotizador na dinâmica da massa? Qual é a figura que exerce sobre o grupo a atração que o hipnotizador exerce sobre o paciente?

A resposta que Freud construiu é tecnicamente psicanalítica mas se traduz com clareza. Ele dirá que o líder da massa ocupa, no interior de cada membro do grupo, o lugar que o sujeito havia reservado para o seu ideal. Quando isso acontece, os membros do grupo se identificam uns com os outros porque compartilham o mesmo objeto de investimento afetivo, o líder. A coesão da massa não é produto de interesse racional compartilhado; é produto de uma ligação de natureza libidinal que opera abaixo do nível da consciência.

"Uma massa é essencialmente um conjunto de indivíduos que colocaram, no lugar do ideal dos seus eus, um mesmo objeto; e com isso, identificaram-se uns com os outros em seu eu." — Freud, Psicologia das Massas e Análise do Eu

Freud observa, com a ironia discreta que lhe era característica, que a descrição de Le Bon da alma da massa corresponde à vida anímica das crianças e dos povos primitivos, e que, tendo Le Bon chegado a esse resultado sem o instrumental da psicanálise, havia chegado a ele por caminhos que não conseguia justificar teoricamente. O diagnóstico era correto; o mapa do terreno, insuficiente.

Há nessa leitura algo que os comentadores costumam sublinhar. Freud dedica todo um livro a responder a Le Bon porque o problema que Le Bon havia formulado era real e urgente, e nenhuma resposta disponível em 1921 era satisfatória. O elogio mais generoso que um pensador pode receber é precisamente esse, o de ter colocado uma questão que os melhores pensadores do século seguinte não conseguiram fechar.

A resposta de Freud

Em 1921, Sigmund Freud publicou Psicologia das Massas e Análise do Eu, obra em que se propôs responder a Le Bon com os instrumentos da psicanálise. Freud concordou com o diagnóstico; o indivíduo, ao integrar a massa, sofre uma transformação real. Discordou da explicação; o que Le Bon descreveu como hipnose coletiva podia ser compreendido, segundo Freud, pelos mecanismos da identificação, da regressão e da substituição do ideal do eu pela figura do líder, que passa a ocupar o lugar que o sujeito havia reservado para si mesmo.

A resposta de Freud não refutou Le Bon; aprofundou-o por outro caminho, e tornou-se ela própria uma das obras mais importantes sobre o comportamento coletivo já escritas.

A recepção: dos estadistas aos engenheiros de produto

A história da recepção de Psicologia das Multidões é, ela própria, um comentário ao livro. Publicado em 1895, o texto circulou rapidamente pelos círculos que Le Bon pretendia atingir: os estadistas e estrategistas da Terceira República francesa, a quem ele pretendia ensinar como conter as massas que a democratização havia posto em movimento. Le Bon organizava almoços regulares em seu apartamento parisiense para os poderosos da época, presidentes, ministros, generais, e Psicologia das Multidões funcionava como cartão de visita intelectual.

Mussolini o citava explicitamente em seus discursos e escritos, com a desenvoltura de quem encontrou num texto acadêmico a confirmação do que já praticava. Hitler nunca o mencionou de modo verificável, mas os editores críticos do Mein Kampf documentaram passagens que sugerem familiaridade com o argumento leboniano. Edward Bernays, sobrinho de Freud e fundador das relações públicas modernas, sintetizou Le Bon, Freud e Wilfred Trotter em Crystallizing Public Opinion (1923) e Propaganda (1928), extraindo as técnicas de persuasão de massa e as industrializando para fins que o autor nunca havia explicitamente proposto.

Do lado dos leitores acadêmicos, Serge Moscovici dedicou a Le Bon um dos capítulos centrais de A Era das Multidões (1981), descrevendo-o como o fundador involuntário de uma ciência da manipulação política que o século XX aplicaria muito além do que ele havia imaginado. Gordon Allport, um dos fundadores da psicologia social norte-americana, descreveu Psicologia das Multidões como talvez o livro mais influente já escrito em sua disciplina. Essa frase circula com frequência sem que o contexto seja mencionado. Allport a escreveu num ensaio de história da psicologia social em que também apontava os limites metodológicos do texto com precisão considerável.

A desconfiança acadêmica nunca cessou inteiramente. Durkheim havia rejeitado o livro por razões metodológicas que permaneciam válidas. A psicologia experimental das décadas de 1950 e 1960, com seus dados de laboratório e seus grupos de controle, produziu estudos que refinavam, complicavam e às vezes contradiziam as generalizações de Le Bon; sem, contudo, resolver alguns dos problemas que ele havia formulado. O que a psicologia experimental não conseguiu fazer, e não por falta de esforço, foi demonstrar que as regularidades que Le Bon havia descrito eram ilusórias. Elas existiam. O debate era sobre a explicação, não sobre o fenômeno.

Cambridge Analytica foi Le Bon com machine learning

Em março de 2018, os leitores do Guardian e do New York Times descobriram que uma empresa chamada Cambridge Analytica havia processado dados de 87 milhões de usuários do Facebook para construir perfis psicológicos e direcionar mensagens políticas calibradas para as vulnerabilidades específicas de cada segmento de eleitorado. O mundo tratou o episódio como escândalo tecnológico sem precedentes. Era, na verdade, Le Bon com machine learning.

O que a Cambridge Analytica havia feito era aplicar industrialmente o que Le Bon havia descrito artesanalmente. Identificar qual imagem, qual afirmação e qual figura de prestígio funcionam para qual grupo, em qual momento, com qual intensidade emocional, e entregar isso no momento de maior sugestibilidade de cada perfil. A diferença entre o político da Terceira República francesa que subia ao palanque e o sistema algorítmico de micro-targeting eleitoral é apenas de escala e de precisão.

Eli Pariser, que cunhou a expressão filter bubble em 2011 para descrever o efeito dos algoritmos de personalização sobre o consumo de informação, chegou ao mesmo fenômeno por outro caminho. A plataforma que entrega ao usuário conteúdo consistente com suas crenças preexistentes, isto é, conteúdo que ele já está inclinado a aceitar e que evoca respostas emocionais que o sistema já mapeou, está executando o mecanismo da sugestibilidade leboniana com uma eficiência que o próprio Le Bon não poderia ter imaginado.

Jonathan Haidt, psicólogo social norte-americano que publicou The Righteous Mind em 2012 e passou a década seguinte estudando o efeito das redes sociais sobre a polarização política, chegou a uma conclusão que Le Bon teria reconhecido imediatamente. Ele conclui que o julgamento moral humano é primariamente intuitivo, não argumentativo; a razão funciona menos como árbitro independente do que como advogado contratado para defender conclusões já formadas. O que as plataformas digitais fizeram foi criar um ambiente que amplifica os mecanismos intuitivos e emocionais em detrimento dos deliberativos; o que é, em termos lebonianos, a conversão do indivíduo pensante em membro de uma multidão que pensa por imagens.

"Quem quiser influenciá-las não precisa de argumentos logicamente ponderados; basta pintar imagens vívidas e exageros, e repetir incessantemente este procedimento." — Le Bon, Psicologia das Multidões

A frase é de 1895. Poderia ter sido escrita em qualquer sala de produto de qualquer grande plataforma digital em qualquer ano depois de 2008.

O que permanece e o que o tempo não poupou

Toda leitura honesta de Le Bon exige que se distinga o que o tempo confirmou do que o tempo expôs. O que importa é confirmar o que é justo e criticar onde é necessário.

O que o tempo confirmou são três padrões que a pesquisa posterior produziu por caminhos independentes. O primeiro é a anterioridade da imagem sobre o argumento na persuasão eficaz. As pesquisas de enquadramento, os estudos de heurísticas cognitivas e a neurociência da tomada de decisão confirmaram, com dados que Le Bon não tinha, que o julgamento humano é movido primariamente por associações emocionais, não por sequências lógicas.

O segundo é a irredutibilidade do problema do líder carismático. O prestígio leboniano, com vocabulário datado, descreve o mesmo fenômeno que Max Weber chamaria de carisma e que Freud reformularia como identificação com o ideal do eu.

O terceiro é a irreversibilidade das crenças formadas por sugestão. As pesquisas sobre belief perseverance, que documentam com rigor experimental a persistência de crenças desconfirmadas, confirmam o que Le Bon havia observado impressionisticamente.

O que o tempo expôs é mais difícil de defender. Le Bon escrevia dentro de uma trilogia de obras, da qual Psicologia das Multidões é a mais conhecida, cujo projeto era hierarquizar os povos e as raças segundo capacidades psicológicas que ele descrevia como biologicamente determinadas. Esse substrato, que os leitores do século XX decidiram convenientemente ignorar ao reter as técnicas e descartar a ideologia, é parte da estrutura conceitual que Le Bon usava para explicar por que certas multidões se comportam de certas maneiras. Removê-lo sem examiná-lo é uma leitura que reproduz, em menor escala, o próprio mecanismo de distorção que Le Bon descrevia.

Tudo isso não invalida a análise; torna-a mais complexa, que é coisa diferente e mais honesta. Psicologia das Multidões é um livro de um autor que via com clareza incomum certos mecanismos do comportamento coletivo e os inscrevia num quadro teórico hoje insustentável. A tarefa do leitor adulto é separar as duas coisas.

Por que ler em 2026

Há uma pergunta que qualquer defensor honesto deste livro precisa enfrentar. Se Le Bon foi confirmado ponto a ponto pela tecnologia do século XXI, o que o leitor de 2026 ganha ao ler a versão de 1895 em vez de simplesmente estudar os relatórios das plataformas, as pesquisas de Haidt ou os documentos do escândalo Cambridge Analytica?

A resposta é a que distingue o que é um clássico dos demais. O livro de Le Bon entrega um quadro analítico. Quem o leu aprende a reconhecer o mecanismo antes de identificar a instância particular de onde ele é aplicado, o que significa que este leitor estará em vantagem em relação a qualquer análise de caso específico, porque tem o modelo que o caso exemplifica. Quem conhece apenas os exemplos contemporâneos está sempre um passo atrás do ciclo; quando um novo exemplo aparece, não tem instrumentos para reconhecê-lo até que alguém o nomeie.

O mapa que Le Bon desenhou em 1895 com instrumentos metodológicos insuficientes, num quadro teórico parcialmente equivocado e com intenções ideológicas que não se deve esconder é, apesar de tudo, o mapa mais legível que temos do território da psicologia de multidões. Entrar nele equipado com o prefácio e o posfácio desta edição é entrar com os olhos abertos para o que as motiva e conduz. E isso, convém lembrar, é o antídoto para não ser absorvido pela massa.

Conheça essa obra no Clube Realpolitik

Clube Realpolitik — a política como ela é.

NEWSLETTER

Gostou da leitura?

Inscreva-se e descubra leituras densas, autores indispensáveis e ideias que descrevem o funcionamento do Poder nas sociedades modernas.

Artigos enviados para seu e-mail!

NEWSLETTER

Gostou da leitura?

Inscreva-se e descubra leituras densas, autores indispensáveis e ideias que descrevem o funcionamento do Poder nas sociedades modernas.

Artigos enviados para seu e-mail!

NEWSLETTER

Gostou da leitura?

Inscreva-se e descubra leituras densas, autores indispensáveis e ideias que descrevem o funcionamento do Poder nas sociedades modernas.

Artigos enviados para seu e-mail!