
O que é Retrato do Brasil?
Retrato do Brasil é uma obra que foi publicada em 10 de novembro de 1928, poucos meses antes do colapso da República Velha; e seu autor, ao contrário do que se esperaria de um libelo tão duro contra o país, não era um marginal do sistema que descrevia, mas um dos homens mais ricos do café paulista, o mesmo que dois anos antes havia sido o principal fiador financeiro e intelectual da Semana de Arte Moderna de 1922.
Paulo da Silva Prado nasceu em São Paulo, em 1869, e morreu no Rio de Janeiro em 1943. Filho do conselheiro Antônio Prado, diplomou-se pela Faculdade de Direito de São Paulo em 1889 e passou a vida pública entre os interesses da cafeicultura, como membro do Comitê de Valorização do Café entre 1913 e 1916 e, mais tarde, presidente do Conselho Nacional do Café. Foi ele, ao lado da mulher, Marinette, quem concebeu a ideia da Semana da Arte de 1922. Dirigiu a Revista Nova e assinou o prefácio de Pau-Brasil, de Oswald de Andrade. Um homem, portanto, plenamente instalado no centro do poder econômico e cultural que o livro viria a questionar.
A tese central do livro está resumida na sua frase de abertura, que se tornou desde então um dos diagnósticos mais lembrados sobre o país: "Numa terra radiosa vive um povo triste." Essa tristeza, argumenta Prado, não nasceu de acaso nem de clima; foi legada pelos próprios descobridores, cujo dinamismo obedecia a dois impulsos que, em toda a história da conquista, nunca geraram alegria: a ambição do ouro e a sensualidade livre que a Renascença ressuscitara como culto.
A Luxúria e a Cobiça: as Paixões que Fundaram um País
O livro se organiza em quatro capítulos e um post-scriptum, isto é, A Luxúria, A Cobiça, A Tristeza e O Romantismo. A arquitetura é deliberadamente causal, cada capítulo funcionando como consequência necessária do anterior.
O primeiro capítulo trata da luxúria do colonizador ibérico, liberado pela Renascença de restrições que a Idade Média impusera ao corpo e ao desejo. Esse homem novo, ao encontrar a América, encontrou também uma liberdade sexual sem freios possíveis; do contato entre europeu, indígena e africano nasceu a população mestiça que, dentro das teorias raciais que dominavam o pensamento social do início do século, Prado toma como fundamento do caráter nacional.
O segundo capítulo desloca o argumento para a cobiça, isto é, a mesma febre do ouro que movera Colombo e Cortez chegou ao Brasil sem encontrar aqui metal em abundância comparável ao das colônias espanholas; mas a mentalidade que essa febre implantou, a do enriquecimento rápido sem apego à terra, sobreviveu ao desapontamento inicial e passou a organizar toda a economia colonial em torno da extração em detrimento do cultivo.
Prado ilustra esse contraste com um paralelo que atravessa o capítulo terceiro, o da colonização inglesa da América do Norte, protagonizada pelos peregrinos do Mayflower e pelos primeiros colonos da Virgínia, organizada sobre disciplina religiosa, trabalho agrícola e a intenção de permanecer. A colonização portuguesa do Brasil organizou-se sobre a intenção inversa, a de extrair riqueza e partir; onde o puritano construía a própria casa contra o inverno, o aventureiro português procurava a mina e o engenho que lhe permitiriam voltar rico à metrópole.
A Tristeza como Psiquismo Nacional
É desse duplo fracasso, o da luxúria sem amor e o da cobiça sem satisfação, que nasce a tristeza que dá título ao livro. Prado não a trata como impressão passageira nem como clima moral de uma década; trata-a como traço psicológico herdado, produto de paixões que se desenvolveram, segundo ele, a partir de uma origem patogênica provocada pela ausência de sentimentos afetivos de ordem superior.
O livro é, nesse sentido, réplica deliberada ao ufanismo que dominava a literatura oficial brasileira desde a publicação de Por Que Me Ufano do Meu País, de Afonso Celso, em 1900. Onde Afonso Celso celebrava riquezas naturais e destino grandioso, Prado respondia com um diagnóstico que que ia de encontro a qualquer consolo. A intenção do livro, como o próprio autor deixa claro na abertura, era denunciar a patriotada vazia com que se procurava encobrir a situação semicolonial do país.
O Post-Scriptum: um Diagnóstico às Vésperas da Revolução
O quarto capítulo ataca o que Prado chama de mal romântico, isto é, o lirismo melancólico e o bacharelismo divorciado do senso prático que, para ele, completam o quadro da distorção nacional. Mas é no Post-Scriptum, escrito entre 1926 e 1928, às vésperas explícitas da revolução que já se anunciava, que o livro alcança seu momento mais agudo.
Prado ali resume quarenta anos de experiência republicana malsucedida, a sucessão de homens de governo sem outro critério além da conveniência, o vício das oligarquias estaduais sob disfarce da chamada política dos governadores. O diagnóstico o leva a uma conclusão que ele formula sem meias palavras, restavam ao país apenas "duas soluções catastróficas, a Guerra, ou a Revolução."
Prado especula, nas últimas páginas, sobre a origem provável do herói que a crise haveria de produzir; talvez um gaúcho do Sul, talvez um fazendeiro paulista, talvez um desocupado de café como Lenin. A Revolução chegaria dois anos depois, em 1930, liderada por um gaúcho do Sul chamado Getúlio Vargas; poucas previsões políticas escritas no Brasil acertaram com precisão tão desconfortável.
O que Permanece
O que resiste com mais força no diagnóstico de Prado é a leitura estrutural da economia extrativa, isto é, um país organizado historicamente para tirar riqueza da terra em vez de construir riqueza sobre ela; e a captura da política pelas oligarquias regionais, tema que a história republicana brasileira repetiu sob nomes diferentes ao longo do século seguinte.
O desconforto do livro vem, em parte, de quem o escreveu; um barão do café, herdeiro direto da classe cuja cobiça o livro denuncia, recusando ao próprio país qualquer fuga confortável para o ufanismo. Prado não oferece redenção romântica à tristeza que descreve; recusa, com igual rigor, tanto a autocomplacência quanto o desespero.
O livro termina, apesar de tudo, numa nota contra o pessimismo total. Prado fecha as últimas páginas com um pensamento que segue, quase cem anos depois, sem que ninguém o tenha refutado com sucesso, "a confiança no futuro que não pode ser pior do que o passado."


