Como foi possível o
século dos massacres?
Como foi possível o século dos massacres?
Por Equipe Realpolitik
Tempo de leitura: 8 minutos
Há perguntas que um século deixa ao seguinte como se fossem enigmas.
Há perguntas que um século deixa ao seguinte como se fossem enigmas.
E uma delas, talvez a mais humilhante para o orgulho moderno, é esta: como foi possível que povos inteiros, providos de escolas, ministérios, exércitos regulares, universidades, jornais, ciência, técnica, indústria, parlamentos e toda a parafernália do progresso, tenham produzido, com singular competência, os campos, os expurgos, as perseguições em massa, a propaganda total, o culto político, a servidão organizada e o massacre em escala quase industrial?
E uma delas, talvez a mais humilhante para o orgulho moderno, é esta: como foi possível que povos inteiros, providos de escolas, ministérios, exércitos regulares, universidades, jornais, ciência, técnica, indústria, parlamentos e toda a parafernália do progresso, tenham produzido, com singular competência, os campos, os expurgos, as perseguições em massa, a propaganda total, o culto político, a servidão organizada e o massacre em escala quase industrial?
O homem moderno gosta de responder a essa pergunta com uma fórmula cômoda. Dirá que tudo aquilo foi um desvio, uma exceção, um eclipse da razão, uma recaída bárbara num mundo que, fora disso, marchava luminosamente para diante.
O homem moderno gosta de responder a essa pergunta com uma fórmula cômoda. Dirá que tudo aquilo foi um desvio, uma exceção, um eclipse da razão, uma recaída bárbara num mundo que, fora disso, marchava luminosamente para diante.
Ernst Cassirer, em O Mito do Estado, escreveu um livro que desmente essa versão. Porque nele se vê que o horror do século XX não brotou apesar da modernidade, como um acidente no percurso da civilização, mas brotou com a modernidade, usando-lhe os instrumentos, servindo-se de sua técnica, de sua linguagem, de seu maquinismo administrativo e, sobretudo, da indigência espiritual que ela mesma produz quando pretende viver sem valores reais.
Ernst Cassirer, em O Mito do Estado, escreveu um livro que desmente essa versão. Porque nele se vê que o horror do século XX não brotou apesar da modernidade, como um acidente no percurso da civilização, mas brotou com a modernidade, usando-lhe os instrumentos, servindo-se de sua técnica, de sua linguagem, de seu maquinismo administrativo e, sobretudo, da indigência espiritual que ela mesma produz quando pretende viver sem valores reais.
O que se organizou nos regimes totalitários não foi apenas um sistema político mais brutal. Foi uma nova liturgia para massas já desabituadas do juízo, da interioridade e da verdade.
O que se organizou nos regimes totalitários não foi apenas um sistema político mais brutal. Foi uma nova liturgia para massas já desabituadas do juízo, da interioridade e da verdade.
É preciso insistir nesse ponto, porque nele está o nervo da coisa. O homem não vive só entre objetos, nem se move apenas por interesses frios, contratos, tabelas, regulamentos e razões utilitárias. Vive também, e talvez principalmente, entre símbolos, imagens, palavras, gestos, sinais de pertencimento, promessas e medos. Vive num universo espiritual. E quando esse universo é abandonado à mentira, ou pior: quando é deliberadamente fabricado para substituir a realidade, então a política deixa de ser um campo de deliberação e passa a ser um campo de encantamento.
É preciso insistir nesse ponto, porque nele está o nervo da coisa. O homem não vive só entre objetos, nem se move apenas por interesses frios, contratos, tabelas, regulamentos e razões utilitárias. Vive também, e talvez principalmente, entre símbolos, imagens, palavras, gestos, sinais de pertencimento, promessas e medos. Vive num universo espiritual. E quando esse universo é abandonado à mentira, ou pior: quando é deliberadamente fabricado para substituir a realidade, então a política deixa de ser um campo de deliberação e passa a ser um campo de encantamento.
Foi isso que Cassirer viu com rara nitidez. O mito político moderno já não é o velho resíduo espontâneo de povos primitivos. Já não é um rumor obscuro que sobe do fundo das eras. É coisa fabricada, preparada, manipulada, técnica. Não nasce como hera selvagem num muro em ruína; sai de oficinas. Tem artífices. Tem engenheiros. Tem estrategistas. E esta talvez seja uma das mais graves e humilhantes descobertas que essa obra faz: a modernidade, que se gabava de haver destronado o mito, aprendeu na verdade a manufaturá-lo com uma eficiência que os tempos antigos nunca imaginaram.
Foi isso que Cassirer viu com rara nitidez. O mito político moderno já não é o velho resíduo espontâneo de povos primitivos. Já não é um rumor obscuro que sobe do fundo das eras. É coisa fabricada, preparada, manipulada, técnica. Não nasce como hera selvagem num muro em ruína; sai de oficinas. Tem artífices. Tem engenheiros. Tem estrategistas. E esta talvez seja uma das mais graves e humilhantes descobertas que essa obra faz: a modernidade, que se gabava de haver destronado o mito, aprendeu na verdade a manufaturá-lo com uma eficiência que os tempos antigos nunca imaginaram.
E assim se entende melhor o que de outro modo pareceria inexplicável. O verdadeiro rearmamento da Alemanha, diz Cassirer, não começou quando os observadores diplomáticos enfim perceberam a movimentação material dos quartéis. Começou antes, muito antes, quando os mitos políticos já trabalhavam as consciências, quando a linguagem já fora rebaixada, quando a massa já fora conduzida a desejar aquilo que depois a esmagaria. O aparato militar veio depois, como consequência quase natural de uma conquista anterior, mais sutil e mais profunda: a conquista do imaginário.
E assim se entende melhor o que de outro modo pareceria inexplicável. O verdadeiro rearmamento da Alemanha, diz Cassirer, não começou quando os observadores diplomáticos enfim perceberam a movimentação material dos quartéis. Começou antes, muito antes, quando os mitos políticos já trabalhavam as consciências, quando a linguagem já fora rebaixada, quando a massa já fora conduzida a desejar aquilo que depois a esmagaria. O aparato militar veio depois, como consequência quase natural de uma conquista anterior, mais sutil e mais profunda: a conquista do imaginário.
É também por isso que a figura do líder moderno tem algo de sacerdotal, embora se apresente com a máscara do técnico, do administrador, do intérprete lúcido das necessidades históricas. Cassirer percebe muito bem essa duplicidade. O governante totalitário não se limita a governar; ele se faz vidente, decifrador de destinos, distribuidor de significados, encarnação de uma vontade coletiva que, no fundo, ele mesmo ajuda a fabricar. Sua autoridade não provém só da força de mando, mas do fascínio de personificar uma promessa. E aqui começa uma das grandes misérias do homem moderno: já não quer apenas ser governado, quer ser salvo politicamente.
É também por isso que a figura do líder moderno tem algo de sacerdotal, embora se apresente com a máscara do técnico, do administrador, do intérprete lúcido das necessidades históricas. Cassirer percebe muito bem essa duplicidade. O governante totalitário não se limita a governar; ele se faz vidente, decifrador de destinos, distribuidor de significados, encarnação de uma vontade coletiva que, no fundo, ele mesmo ajuda a fabricar. Sua autoridade não provém só da força de mando, mas do fascínio de personificar uma promessa. E aqui começa uma das grandes misérias do homem moderno: já não quer apenas ser governado, quer ser salvo politicamente.
Ora, quando a política começa a oferecer salvação, já estamos fora da política. Entramos numa religião degradada.
Ora, quando a política começa a oferecer salvação, já estamos fora da política. Entramos numa religião degradada.
E aqui chegamos ao ponto decisivo. Há livros raros que devolvem ao leitor uma faculdade quase perdida: a de perceber em que espécie de mundo, ou sob que espécie de mentira, ele está vivendo. O Mito do Estado é um desses livros.
E aqui chegamos ao ponto decisivo. Há livros raros que devolvem ao leitor uma faculdade quase perdida: a de perceber em que espécie de mundo, ou sob que espécie de mentira, ele está vivendo. O Mito do Estado é um desses livros.
Por isso a Realpolitik escolheu esta obra para fazer parte do Clube Realpolitik.
Por isso a Realpolitik escolheu esta obra para fazer parte do Clube Realpolitik.
Embora seja um clássico importante e explique uma tragédia encerrada, essa obra importa porque toca, com a mão firme dos grandes livros, questões mortalmente importantes da política e abre a caixa-preta do século passado.
Embora seja um clássico importante e explique uma tragédia encerrada, essa obra importa porque toca, com a mão firme dos grandes livros, questões mortalmente importantes da política e abre a caixa-preta do século passado.
Entrando no clube com algum dos planos abaixo, você garante:
Entrando no clube com algum dos planos abaixo, você garante:
O Mito do Estado, de Ernst Cassirer
Em edição de luxo com capa dura, fitilho e marca páginas
Livreto brinde: A Crise do Espírito, de Paul Valéry
Ambos em traduções inéditas diretas do original
Notas explicativas e comentários para auxiliar na leitura
O Mito do Estado, de Ernst Cassirer
Em edição de luxo com capa dura, fitilho e marca páginas
Livreto brinde: A Crise do Espírito, de Paul Valéry
Ambos em traduções inéditas diretas do original
Notas explicativas e comentários para auxiliar na leitura
OFERTA ESPECIAL
OFERTA ESPECIAL
Escolha seu plano abaixo e faça parte do Clube Realpolitik
Escolha seu plano abaixo e faça parte do Clube Realpolitik
OBRA AVULSA
OBRA AVULSA

O Mito do Estado
De Ernst Cassirer, em edição de luxo, com todo o rigor da Realpolitik
e mais:
Livreto A Crise do Espírito
de Paul Valéry
Traduções inéditas
Marca páginas e caixa especial
Desconto e frete grátis
Mais cinco boxes ao longo do ano
Acesso à loja dos assinantes com descontos especiais
por apenas:
R$90
+ R$ 19,90 de frete
plano ANUAL


O Mito do Estado
De Ernst Cassirer, em edição de luxo, com todo o rigor da Realpolitik
e mais:
Livreto A Crise do Espírito
de Paul Valéry
Traduções inéditas
Marca páginas e caixa especial
Desconto e frete grátis
Mais cinco boxes ao longo do ano
Acesso à loja dos assinantes com descontos especiais
por apenas:
12x R$39,90
+ Frete Grátis
CLIENTE DA EDITORA LOGOS? CLIQUE AQUI E COMPRE COM UM DESCONTO ESPECIAL.